Quando iniciei a idéia de "construir" este blog, confesso, não pensei em por coisas essenciais (erroneamente) sobre o karatê. Pensei em por notícias atualizadas, informações, colunistas, mas não imaginei por algo como a História do Karatê. Mas depois de sugestões, e de cair na real, decidi ir em busca de boas fontes para conseguir escrever este post. E podem ter certeza que foi difícil, principalmente pelo fato de não existir uma precisão quanto ao surgimento do Karatê. E depois de muitas buscas pela internet lembrei de um livro que li há uns anos (e recomendo a TODOS os karatecas): Karatê-dó - O meu modo de vida. Uma auto-biografia (isso mesmo, AUTO, foi escrita por ele mesmo) de ninguém menos que o pai do karatê moderno, o Mestre Gichin Funakoshi. E um dos capítulos é dedicado a origem do karatê. Não imaginei (e não encontrei) fonte melhor, por isso decidi repassar esse texto do livro para vocês. Não posso confirmar que esta é a verdadeira origem, porém aceito sugestões para somar qualidade ao tema no Blog. "Por não haver praticamente nenhum material escrito sobre a história do início do katatê, não sabemos quem o inventou e desenvolveu, e nem mesmo onde teve origem e evoluiu. Sua história inicial pode apenas ser deduzida a partir de lendas antigas que nos foram transmitidas oralmente, e elas, como a maioria das lendas, tendem a ser criações imaginárias e provavelmente incorretas.
Eis o trecho do livro:
Como mencionei anteriormente, o karatê foi proibido pelo governo nos primeiros anos de Meiji, quando eu ainda era pequeno. Não se podia praticá-lo legalmente e, claro, não havia dojôs de karatê. Nem havia instrutores profissionais. Homens que se sabia serem praticantes aceitavam uns poucos alunos em sigilo, mas sua sobrevivência dependia de trabalho que não tinha relação com o karatê. E aqueles que conseguiam ser aceitos como alunos alcançavam esse objetivo devido ao seu interesse pela arte. Bem no começo, por exemplo, fui o único aluno de Mestre Azato e um dos muitos poucos que estudaram com Mestre Itosu.
Não havendo instrutores profissionais, dava-se muito pouca ênfase a descrições escritas de técnicas e de outros elementos afins, uma deficiência que um homem como eu, cuja missão na vida foi à propagação do Karatê-dô, lamentou profundamente. Embora eu obviamente não possa ter esperança de sanar a deficiência, tentarei registrar aquilo que lembro ter ouvido de meus professores sobre as lendas que sobreviveram em Okinawa. Bem, sei que minha memória nem sempre é confiável, e tenho certeza de que cometerei erros. Apesar disso, farei o possível para apresentar aqui o pouco que aprendi sobre a origem e o desenvolvimento do karatê em Okinawa.
Diz-se que Napoleão observou que em algum lugar no extremo Oriente havia um pequeno reino cujo povo não tinha uma única arma. Ë quase certo que ele estava se referindo às Ilhas Ryukyu, ao que hoje é a sede administrativa de Okínawa, e que o karatê surgiu, se desenvolveu e se tornou popular entre as pessoas das ilhas exatamente por esse motivo: porque eram proibidas por lei de portar armas.
Na verdade, havia dois decretos proibitivos desses: um promulgado há cerca de cinco séculos, o outro mais ou menos duzentos anos mais tarde. Antes da proclamação do primeiro decreto, as Ryukyu estavam divididas em três remos guerreiros: Chuzan, Nanzan e Hokuzan. Foi o monarca de Chuzan, Shõ Hashi, quem, ao conseguir a unificação dos três reinos, expediu uma ordem proibindo todos os riukiuanos de possuir armas, mesmo velhas espadas enferrujadas. Ele também convidou os sábios e estadistas famosos dos três reinos para sua cidade—capital de Shuri, onde estabeleceu um governo central que deveria durar ao longo dos dois séculos seguintes.
No ano de 1609, entretanto, o rei da dinastia viu-se obrigado a equipar um exército com o objetivo de repelir uma invasão das ilhas iniciadas por Shimazu, o daimio de Satsuma (agora sede administrativa de Kagoshima). Os guerreiros riukiuanos recémarmados lutaram com notável bravura e valentia contra os soldados do clã de Satsuma, conhecidos e temidos em todo o país por sua habilidade guerreira, mas, depois do sucesso dos riukiuanos em algumas batalhas campais, um desembarque de surpresa realizado pelas forças de Shimazu selou o destino das ilhas e de seu monarca, que foi obrigado a render-se.
Visto que Shimazu reeditou o decreto interditando armas, muitos riukíuanos (na sua grande maioria membros da classe shizoku) começaram secretamente a praticar uma forma de autodefesa em que mãos e pernas eram as únicas armas. O que isto era de fato de podermos apenas conjeturar. Entretanto, sabemos que, por muitos séculos, Okinawa manteve relações comerciais com o povo da Província de Fukien, no sul da China, e provavelmente foi dessa fonte que o kempo (“boxe”) chinês foi introduzido nas ilhas.
O karatê atual evoluiu a partir do kempo. Inicialmente, era conhecido como “Okinawate”, e eu me lembro, quando criança, de ouvir as pessoas mais velhas falarem tanto de “Okinawate” como de “karatê” (neste caso, kara se referindo à China). Comecei então a considerar o Okinawate como uma arte de luta nativa de Okinawa e o karatê como uma forma chinesa de boxe. De qualquer modo, eu fazia uma clara distinção entre os dois.
Durante os anos de proibição de armas, de Satsuma eram enviados ás ilhas inspetores que tinham a incumbência de assegurar-se de que a proibição estava sendo obedecida estritamente, de modo que não é de surpreender que o karatê (que, à medida que foi se desenvolvendo, capacitava um homem a matar sem armas) somente pudesse ser praticado na clandestinidade. Como observei anteriormente, este aspecto clandestino do karatê continuou durante os primeiros anos de Meiji, em parte porque o antigo decreto persistia na mente do povo.
Ë minha observação pessoal que as danças folclóricas de Okinawa utilizam diversos movimentos que são semelhantes aos usados no karatê, e o motivo disso, creio, é que os especialistas que praticavam a arte marcial às escondidas incorporaram aqueles movimentos nas danças para confundir as autoridades ainda mais. Sem dúvida, qualquer pessoa que observe atentamente as danças folclóricas de Okinawa (e hoje elas se tornaram bastante populares nas grandes cidades) perceberá que elas diferem acentuadamente das danças mais graciosas das outras ilhas japonesas. Os dançadores de Okinawa, de ambos os sexos, usam as mãos e os pés muito mais vigorosamente, e tanto sua entrada na área de dança como sua saída lembram o começo e o fim de qualquer kata do karatê.
Na verdade, a essência da arte foi resumida nestas palavras:
“O karatê começa e termina com cortesia.” [...]"
Fonte: FUNAKOSHI, Gichin. Karatê-dó. O meu Modo de Vida. Editora Cultrix.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Historia
Postado por Thiago Bittencourt às 05:37
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